O slogan do Nokia N8, a Kodak e o zeitgeist

Qual é a semelhança entre a boa publicidade do final do século XIX e a boa publicidade do nosso admirável mundo novo? Uma das melhores respostas que eu conheço para essa pergunta é a seguinte: quase todas as grandes campanhas, do passado ou do presente, são precisas em identificar e explorar os anseios de determinada geração, os pensamentos e comportamentos humanos que definem um período da história. É o famoso “zeitgeist” – “espírito da época”, em alemão.

A esta altura, você já deve ter assistido a algum vídeo da campanha criada pela Wieden+Kennedy (Londres) para o recém-lançado smartphone N8, da Nokia.

O slogan me chamou a atenção logo de cara:

Não é tecnologia, é o que você faz com ela.

Você pode imaginar algo mais adequado para descrever o atual momento da sociedade consumidora de tecnologia? Hoje, você pode produzir conteúdo de qualidade com recursos digitais relativamente simples e baratos. Pode criar o próximo meme global. Pode ter seu próprio canal no YouTube. Publicar um livro. Ajudar pessoas. Inventar moda. E, bem, usar um hamster para carregar uma bateria de celular, acho.

A própósito: uma das principais características do N8 é a câmera de alta qualidade, com seus 12 megapixels. E, coincidentemente ou não, a Nokia está fazendo o mesmo que uma famosa empresa de produtos fotográficos fez há exatos 120 anos.

Na segunda metade do século XIX, fotografar era uma atividade para poucos. Em vez de filmes, utilizavam-se placas de gelatina, que eram pesadas, frágeis, caras e difíceis de usar. Sem falar que precisavam ser substituídas a cada nova foto e tornavam todo o processo mais lento do que aquele retrato de final de ano que você tira com todos os seus 217 parentes reunidos em volta da árvore de Natal. Em outras palavras, era coisa de profissional.


Câmera do século XIX
Câmera do século XIX

Imagem via Janez Novak

Assim a vida seguiu até aparecer George Eastman, um homem de negócios da cidade de Rochester, Estado de Nova York. Em 1887, ele e seus associados desenvolveram uma nova câmera que funcionava com o inédito filme em rolo. Era pequena, muito mais simples que suas antecessoras e permitia ao usuário registrar 100 imagens e depois entregar a máquina para a própria empresa de Eastman fazer a revelação e trocar o filme. Basicamente, o usuário só precisava apertar o botão do clique. O lançamento foi chamado de “Kodak”, nome escolhido pelo próprio empresário, apenas pelo fato de simpatizar com a letra K.

Agora tente imaginar o zeitgeist que envolvia todos esses acontecimentos. A coisa mais moderna da época era a lâmpada incandescente, super invenção de 1879. Ainda não existiam o avião e nem o cinema. O cidadão comum já estava razoavelmente habituado à ideia de se deixar fotografar, mas o fotógrafo ainda era visto como o senhor de uma arte inacessível para amadores. E lá estava George Eastman, com a absurda tarefa de convencer o pessoal a comprar não uma lamparina ou uma bicicleta – mas uma câmera! Foi aí que ele próprio criou um dos mais célebres slogans da história da propaganda:


Você aperta o botão, nós fazemos o resto.

Imagem via patentplaques.com

Gotcha. A campanha, que teve sua primeira peça veiculada em 1890, ficou gravada na memória eterna da publicidade. É uma espécie de marco oficial do início da popularização da fotografia. Eastman, que também gostava de se aventurar em uns cliques de amador, captou com perfeição o espírito do seu tempo. Percebeu prontamente que estava em um mundo de gente que olhava para aquele tipo de tecnologia com um olho torto. E entendeu que a situação podia mudar, com certo esforço.

Mais de uma centena de anos depois, os resultados ainda são vistos nos nossos álbuns do Facebook. Nas nossas viagens para o Guarujá. Ou nos nossos smartphones com câmeras de 12 megapixels.

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