Cadavre Exquis >> O lado surrealista da arte colaborativa

Se você pudesse voltar ao longínquo ano de 1925, um bom local para visitar seria o número 24 da famosa Rue du Château, em Paris. Ali, na casa que o roteirista e ator Marcel Duhamel habitava com outros importantes artistas contemporâneos, costumavam se reunir alguns dos principais representantes do surrealismo no século XX: Yves Tanguy, Marcel Duchamp, Jacques Prévert, Benjamin Peret, Pierre Reverdy, André Breton e outras figuras que dificilmente poderiam ser enumeradas em ordem de grandeza.

Dependendo do momento em que você aparecesse, encontraria o grupo debatendo sobre os principais acontecimentos da época. Mas, como tudo é uma questão de timing, você também poderia chegar mais tarde e surpreendê-los no meio de uma curiosa e – na visão de alguns – pueril brincadeira: o Cadavre Exquis.

Literalmente, a expressão significa “Cadáver Requintado”, embora muita gente utilize traduções menos precisas, como “Cadáver Esquisito” ou “Corpo Estranho”. As regras originais do jogo são desafiadoramente simples: alguém inicia uma frase em um pedaço de papel e o entrega ao próximo participante, para que este continue o texto. Uma terceira pessoa acrescenta mais um trecho à sentença, passando-a àdiante. E assim sucessivamente. No entanto, cada jogador só é autorizado a ler a contribuição do participante imediatamente anterior a ele; o conteúdo inteiro do papel só é revelado no final.

Reza a lenda que o nome do passatempo deriva da frase que surgiu na primeira vez em que os surrealistas da Rue du Château decidiram experimentá-lo: “O cadáver requintado irá beber o novo vinho”. Outros resultados aussi bizarre vieram mais tarde (em tradução livre):

A luz completamente negra estabelece dia e noite a suspensão impotente para fazer o bem.

Monsieur Poincaré, se você quiser, beijos na boca, com uma pluma de pavão, em um ardor que eu nunca vi antes, o atrasado Monsieur de Borniol.

O camarão maquiado dificilmente ilumina alguns beijos duplos.

A Rua Mouffetard, estremecendo de amor, diverte a quimera que dispara sobre nós.

O Pathos, muito emocionado, agradece cantando o projétil de grama picada entre Line e Prâline.

Caraco é uma linda prostituta: preguiçosa como um arganaz, e coberta de vidro por nada fazer, ela encordoa pérolas com os perus da farsa.

Desde aquele comecinho de século, o Cadavre Exquis, além de ter influenciado diversos escritores e poetas que frequentavam a casa de Marcel Duhamel, expandiu-se com energia de gente viva para quase todos os segmentos artísticos. Nas artes plásticas, a técnica não apenas é usada para criar colagens e desenhos coletivos, mas também já gerou projetos como este interessantíssimo experimento da Asia-Europe Foundation, ou o recém-lançado The Exquisite Books: 100 Artists Play a Collaborative Game.

Nas telas, a coisa alcança um patamar ainda mais incrível. Se você mantém um rol de experiências instigantes, certifique-se de acrescentar a ele a animação oitentista AniJam, o filme Cadavre Exquis Première Édition e o sensacional documentário tailandês Misterious Object at Noon (dividido em 9 partes no YouTube), em que moradores de vilarejos do país constroem juntos uma história de ficção, ao mesmo tempo em que contam passagens marcantes de suas próprias vidas:

E por aí vai. O Cadáver Requintado também tem suas versões nos quadrinhos, em projetos multiartísticos e até no Second Life. No caso do Brasil, vale mencionar a exposição organizada este ano pelo Centro Cultural São Paulo.

A parte mais interessante, entretanto, está em afirmações como a do poeta e crítico de arte Nicolas Calas, quando este dizia que o Cadáver Requintado consegue revelar uma espécie de realidade insconsciente (e coletiva) do grupo que a criou. O próprio André Breton relata o que ele classificou como um verdadeiro enigma: durante a brincadeira, era comum que diferentes participantes lançassem mão de palavras ou trechos com temáticas e origens similares, mesmo que um não pudesse ver o que o outro escrevera. Segundo Breton, tudo leva a crer que existe uma comunicação tácita e involuntária entre os participantes do jogo.

Em tempos de crowdsourcing e projetos colaborativos felizmente brotando em atacado, isso tudo me faz pensar na maneira como algumas pessoas atribuem à tecnologia um poder que ela não tem. A vontade de criar em conjunto provavelmente existe desde que um cara, lá no Paleolítico Superior, usou excremento de morcego para desenhar um bisão na parede de uma caverna, despertando nos seus companheiros de gruta uma vontade incontrolável de cobrir com arte todo aquele pedaço de pedra. A internet e outras ferramentas digitais foram responsáveis por ampliar nossas possibilidades, mas a criatividade coletiva é mérito das nossas cabeças, obrigado.

Porque cadáver que se desenterra só é só um cadáver que se desenterra só. Mas cadáver que se desenterra junto é cadáver requintado.

Para saber mais:
exquisitecorpse.com
blogdofavre.ig.com.br
musicsynthesizer.com

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