A cultura da rapidinha – Por que os textos estão encurtando e como isso afeta o redator

“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.” Pode não parecer, mas você acaba de ler um dos contos mais famosos do mundo. Um microconto, de autoria do escritor guatemalteca Augusto Monterroso. Foi publicado em 1959. No entanto, parecia prever o que aconteceria décadas depois, com a popularização de plataformas de comunicação instantânea como o SMS e o Twitter.

Escrever sempre foi uma experiência diretamente ligada a contextos sociais, políticos, econômicos e culturais. As obras literárias do Romantismo davam ênfase às emoções porque surgiram num período em que o homem era considerado o centro do universo. O Realismo, em consonância com o espírito positivista e científico do século XIX, produziu obras que valorizavam a objetividade e a crítica.

Augusto Monterroso, o homem que "tuitou" contos muito antes de existir o Twitter

Imagem via http://diariodelgallo.wordpress.com

Hoje, vivemos o que para muitos é a Era da Sobrecarga de Informação. Quanto mais informação nos chega, mais precisamos ser seletivos. Antes de ler um texto longo, mesmo que inconscientemente, você precisa decidir: será que vale a pena? Será que o tempo e os neurônios que vou investir nesta leitura não poderiam ser usados para outra coisa mais interessante?

Essa situação sociocultural, como qualquer outra, tem seus reflexos no nosso jeito de escrever – se não em forma de movimento literário com nome e certidão de nascimento, pelo menos encurtando grande parte dos textos da comunicação contemporânea.

É daí que surgem projetos como este e este. É daí que vêm os textos cada vez mais curtos na propaganda. É daí que se originam sites como o Blue Bus, com suas notícias sintéticas e de rápida assimilação. Também é um dos fatores que motivam o Twitter, não por acaso considerado uma ferramenta microblogging. Em todos esses casos, você lê. Se achar bom, ótimo. Se achar ruim, tudo bem, pois só gastou alguns poucos segundos da sua vida com aquilo. Não há aquele medo de perder tempo. São conteúdos leves, que tornam a decisão do “será que vale a pena?” muito mais simples.

Não estou falando sobre um caminho obrigatório, que fique claro. Sempre vai existir público para livros de 800 páginas e para sites com matérias super aprofundadas que fazem a barra de rolagem trabalhar duro. Mesmo na publicidade, sempre vão surgir ideias capazes de entreter o consumidor durante bastante tempo e, simultaneamente, promover um produto. Mas ser textualmente breve, principalmente na web, não deixa de ser uma tendência.

E ser breve, meus amigos, não é fácil. Pelo ponto de vista publicitário, talvez seja esse o grande desafio ao redator moderno: vender sem aborrecer, comunicar sem ser prolixo. Já dizia Blaise Pascal: “Se escrevi esta carta tão longa, foi por não ter tido tempo para fazê-la mais curta”. E já diz Bruno Lacerda: “Se eu me estendi demais neste post, espero que você não tenha encontrado alguém que explicou a mesma coisa em até 140 caracteres.”

A mulher-gorila fugiu com os irmãos siameses. Denunciados pelo dono do circo, eles foram presos por bestialismo e ela por bigamia.
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