Cordel ou repente?

Banda Larga Cordel - Gilberto Gil (2008)“Quem não vem no cordel banda larga vai viver sem saber que o mundo é seu.” A frase é de Gilberto Gil, no álbum Banda Larga Cordel (2008). E é perfeita para começar um blog que terá, entre seus principais assuntos, as palavras e a web 2.0.

Explico. A literatura cordelista do Nordeste surgiu na segunda metade do século XIX, em uma época pré-internet, pré-telefone e pré-quase-todo-meio-de-comunicação-à-distância. Mesmo assim, artistas como Leandro Gomes de Barros, João Martins de Ataíde, Cuíca de Santo Amaro e Zé Limeira conseguiram disseminar suas obras de maneira independente, às vezes fundando gráficas próprias, cuidando da produção, da promoção, da comercialização.

E este é um dos traços típicos da nova era digital: qualquer mortal dotado de conhecimento razoável e alguma criatividade pode gerar conteúdo desejável acessível por gente de todas as partes. Músicos gravam sem gravadoras, cineastas exibem sem distribuidoras, escritores publicam sem editoras.

Mas a produção de conteúdo moderna está, claro, longe de ser uma ode ao individualismo. É, pelo contrário, uma grande oficina colaborativa. Vide as recentes experiências de Neil Gaiman com seu áudiolivro tuitado ou de Paulo Coelho e o filme A Bruxa de Portobello.

Bruxa de Portobello – segundo Antoine Locadour

Fernando | Vídeo do MySpace

O que nos faz pensar em outra famosa manifestação de arte popular nordestina: o repente, cuja modalidade mais célebre é o desafio, em que dois cantadores se alternam na improvisação de rimas ao som de um pandeiro ou viola. Cada apresentação é diferente de todas as outras, é um obra inédita, construída colaborativamente pelos repentistas, ali, no calor do momento, sem saber exatamente o que vai acontecer no final. Alguma semelhança com nosso querido ateliê mundial online?

Lourival Batista, famoso repentista pernambucano

É fascinante pensar que a rede favorece a produção independente sem torná-la necessariamente individualista. Deixa claro que o “faça você mesmo” e o crowdsourcing são dois lados de uma mesma tecnologia. O conteúdo que você procura pode ter um autor, que também é produtor, divulgador, distribuidor e tia do cafezinho. Ou pode ter 1.000 autores. A internet tem seus varais para os folhetos de cordel. Mas também está lotada de palquinhos para o agito do repente.

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